O seor Doutor Eldom Tyrell e mais eu convocamos o Primeiro Concurso de Traduçom Galega, dotado cum prémio ganhador de dous mil dólares ($2000) e mais umha caixinha de primeiros socorros (incluindo emplastros pra dedos crebados) aberto a tódolos replicantes e lusistas do Sistema Solar. Persoas e portugueses com interesse no galego tamém serám admitidos, após passarem o teste do Holden (que implica conhecer a diferença entre um cágado e umha tartaruga).
Neste primeiro concurso tratara-se de traduzir doze (12) frases galegas pra duas outras línguas, nomeadamente:
1) A língua portuguesa da Galiza (ou «português da Galiza»)
2) A língua portuguesa de alhures
Velaqui as oraçons a traduzir:
1 Já pechárom a bilha do chapitel
2 Quando eu cheguei à casa já pecharam a fiestra
3 Figem-no sem me decatar / dar de conta
4 E logo hoje jantache antes das duas?
5 Adoitam alporiçar-se / remontar-se muito
6 Volta e dá-lhe!
7 Estivem a piques de perder o acordo
8 O Acordo Ortográfico é umha argalhada do nabiço
9 O jantar e a ceia fôrom de achego
10 Dom Celidónio devecia por liscar de aló
11 Digérom-me que o abouxaram
12 Isso já mo digeram
Mandade as vossas respostas, junto co certificado de aprovado do Teste cágado-testuda de Holden, a este blogue, ou outramente a Tyrell Co.Trade Center, 15 Carroucho dos Toxos Replicantes, Downtown Los Angeles, em formato electrónico ou papel.
(Disclaimer: entries in portunhol will not be considered, as that, though existing, is not a recognized language)
Hai
conceitos que som difíceis de compreender, aliás, de explicar. Um deles é o de
decadência, decadente. É um conceito que sempre me escapou, já desde que um
amigo, aló na minha juventude, me levou ver umha certa construçom de ferros e
cristais, entalada no meio dum parque. «Que decadente!» dixera todo o tempo,
absolutamente abraiado. E eu, que nom comprendia de que estava a falar, quedava
com cara de pampo.
Mais tarde,
nas aulas da universidade, nas bancadas das bibliotecas, em livros inúmeros que
lim ao longo dos anos, volvia aparecer o mesmo palavro, o mesmo conceito, e
frequentemente vencelhado à verba «barroco». E eu continuava sem compreender. E
embora tivesse tentado com grande teima compreender o significado dessa palavra,
ou palavras, se tomarmos o nome e mai-lo adjectivo, nunca dava compreendido. Ao
que parece, tratava-se, conseguim eu intuir muito mais tarde dalgumha maneira pouco ortodoxa,
dumha tendência corruptiva, dum pendor à podredume, que tódalas cousas tenhem,
e que mesmo antes de desaparecer e morrer e apodrecerem dam botado um
derradeiro hálito de nom sei que grandeza.
É por isso
que eu nom gosto da linguagem nem das gramáticas, porque som apenas atravancos
à humanidade, à compreensom, sob a pretensom contrária.
Mas nunca é
tarde de mais, isto é, nunca é tarde de mais pra quem persevera, pra quem
teima, e por isso é que eu conseguim num belido dia (hoje) conseguir ser quem de
enxergar compreendendo o significado do conceito e mai-la ideia que se pode
enxergar na profundidade do conceito a compreendê-la alviscando na essência do
conceito a conceituar enxerghando cagho em diola o que é decadência, decadente.
Acordei
cum sorriso nos beiços. Fora só um sonho. As persoas apareciam e desapareciam,
relacionavam-se, falavam e se tocavam, sempre dumha maneira relaxada, natural.
Ninguém perguntava polas cores do cor, nem esculcava nas raízes da ponla que
verdeciam. Todas esqueciam, consoante quem lhes dixera algo desaparecia. Nom
havia carnets, nom havia tendências, nom havia espaços pra surfistas nem pra
comunistas, a terra era una.
Acordei
cum sorriso nos beiços. Fora só um sonho. Aló nom havia faixas de trânsito,
pois todas as persoas circulavam amodinho. Nom havia telefones, nom havia
trebelhos nem youtube. Haver nom havia nem bibliotecas, porque afinal, quem era
que ali ia ler um livro?
As
persoas falavam, quando falavam, em línguas diversas, mas nom havia gramáticas,
nom havia ortografias, pra além da sintaxe das cores, a dos ares, a dos
paxaros. Cada quem tinha a sua língua.
Acordei
cum sorriso nos beiços. Ele-fora só um sonho, mas que sonho! As persoas
semelhavam escoitar, mais ca falar. Num recuncho albisquei um velhinho a olhar pràs
estrelas — era noite — e à volta dele um rebúmbio de cativos a olharem tamém com
ele. A luz das estrelas parecia debuxar um sorriso nos beiços de cada um deles.
E ninguém falava.
Noutro
recuncho, este já su-la luz podente do dia, umha mulher, com pintas de poetisa
(pucha descaída, colgarexos e tatuaxes na pele) parecia querer declamar como
umha poesia, mas nom conseguia mais ca exalar saudades sem sons, suspiros. E
todos à volta dela pareciam segui-los invisíveis, coa olhada morrinhenta. Ai.
Acordei
cum sorriso nos beiços, e decatei-me de que nom tinha língua, nom tinha
gramáticas, ortografia. Só pulmons e boca pra inspirar e expirar, e saudades.
No meu sonho as persoas falavam-se sem medo, olhavam-se nos olhos profundamente,
um hominho eu vim ali a passear cum outro home, de maos dadas, que o guiava no
entre lusco e fusco, e lhe dizia «cuidado, nom vás cair» e despois se perdiam
na escuridom mais funda do sonho. Num outro recuncho albisquei umha rapariga,
umha belida rapariga como deve ser, cos braços nus, cabelos longos e pretos,
encaracolados, a olhar prò parrafeio dum rapaz, que parolava como que umha fala
escorregadia, sem palavras, apenas ondas e vagas de degoiro e cantiga. E um
outro rapaz se aproximava deles, cumha pucha dessas dos operários dos tempos de
branco-e-pretos. E bicava a rapariga nos beiços, e apertava o rapaz sem língua
própria, e a rapariga tamém o bicava.
E
naquele sonho de que falo, havia persoas sem número a olharem pra um solpôr,
todas arrecadadas coma que num anfiteatro grego, e de quando em vez se olhavam antre si, e sorriam. E ninguém falava, porque nom havia outra língua ca a do
solpôr, e a da irmandade humana.
Acordei
cum sorriso nos beiços, e cuidei que nom acordara. E nom conseguia lembrar
nengumha palavra, nem sequer aquela com que os outros homes me chamavam. E a
raiola do sol xurdiu dumha frincha da fiestra, e alumiou-me a faciana. Entom
conseguim lembrar algumhas palavras, e desejei esquencê-las.
E ao séptimo dia Deus decidiu parar, e espreitar toda a obra que
tinha feito. Mas sendo um ser tam omnipotente e bulebule como era (fixera o
universo inteiro, afora o home, em apenas seis dias) nom conseguiu descansar
muito, porque a mente nom lhe parava de fervilhar. Alô sentado no seu alto
trono, questionava-se sobre a qualidade e pertinência da sua criaçom. De modo
que, contra o final do dia, o sétimo da Criaçom, entrárom-lhe dúvidas e
receios, amais dumha considerável enxaqueca. Ele-essas baleias e peixes grandes
do mar, nom acabariam por dar cabo de tódolos peixes pequenos? E a relva verde,
ele-nom poderia acabar por secar? E se a luz vinhese a se apagar, por qualquer
falha imprevista nos circuitos moleculares, aliás atómicos?
Aquela noite Deus foi deitar-se bastante deprimido, por nom saber
donde lhe vinham todas essas dúvidas e incertezas. Mas ao dia seguinte, segunda
feira por sinal, decidiu dar cabo de todos os seus medos, e pôr-se maos à obra:
e Deus criou o home. E criou-no à sua imagem e semelhança ...
No
planeta Arrakis, ao abeiro dumha espenuca (nesse planeta costuma haver acotio
tempestades de muito nabo) atopam-se com Gurney Hallek (o famoso trovador
caladano) cinco outros trovadores:
Um
deles é inglês.
Outro
é francês.
Um
outro é italiano.
Mais
um outro é espanhol.
E o
derradeiro é português.
Assi
que o Gurney começa a tocar no seu baliset de nove cordas, ocorre-lhe umha
pergunta de tipo histórico-linguística. Diz assi (traduço ao galego, pra
facilitar a compreensom):
«Alô
longe, mui longe, há um planeta, azul e nom coma o nosso, cheio de auga que nem
o próprio Caladan, em que havia milheiros de trovadores. O derradeiro e mais
milhor de todos eles chamava-se Bob Dylan, que escrevera cousas sublimes coma
«estava eu a navegar na Frol de Maio quando cuidei albiscar terra». Mas antes
dele houvo muitos outros. A pergunta-desafio do milhom de doses de melanxe, é a
seguinte»:
«Quem
dentre vós é quem (dentre vós) de declamar o mais antigo e belido poema-cantiga
da vossa língua, mas que seja tam comprensível, pra vós, quanto belido e
antigo?»
O
francês salta de contado, já se sabe como som patriotas os dessa naçom, mas
como nom sabia nada de francês antigo que fosse compreensível pra ele mesmo,
ficou-se por um verso de Ronsard («Ah longues nuicts d'hyver de ma vie
bourrelles, Donnez moy patience, et me laissez dormir» ) e que de resto nom
vinha a calhar numha noite de tempestade de areia em Arrakis (onde os ventos som
tam fortes que é sabido vos podem arrincar coma coitelos a carne dos ossos).
O
inglês, mais comedido, acha que o seu tempo é chegado: «ele-eu tamém tenho algo
pra recitar» («I will, if I may», dito na sua fala) e começa a recitar qualquer
cousa do Guilherme Xaquespeira, tipo, «I like this place and willingly could
waste my time in it» (E isto até o português o entendeu.)
«Moi
bem», dixo o Gurney, «tam antigo coma o francês, e ainda nom menos belido e
considerado» (e aí os protestos do trovador francês de que o idioma inglês
provinha do francês nom recebérom muita atençom).
Toca
ao italiano:
«Nel
mezzo del cammin di nostra vita
mi
ritrovai per una selva oscura
ché la
diritta via era smarrita. »
«Bom,
se quadra nom som os versos mais belidos que já ouvimos, — retrucou o Gurney —
mas som mais antigos e venhem bem a calhar nesta cova de refúgio em que nos
achamos ... »
O
turno é agora pró espanhol, que consulta no seu iPhone 7 Plus e recita o seguinte:
«De
los sos oios tan fuertemientre llorando,
Tornava
la cabeça e estávalos catando»
E aí
que o português se ergue de súpeto, e protesta: «isso não é bonito, pá, e de
resto é português!». O espanhol nom parece fazer muito caso, porque anda mui
ocupado no seu iPhone 7 Plus, a pescudar tradutores automáticos ou dicionários
on-line que lhe ajudem co significado desse poema, que decerto lhe escapa ...
Gurney,
matinando e afinando no seu baliset, diz, «mmmh, nom sei, nom sei ... » incerto
ele tamém do significado da velha cantiga espanhola ou portuguesa ...
Entretanto,
o português era o único que faltava por declamar. E como os portugueses som,
como sabemos, mui aleutos e espilidos (=espertos), o nosso português de Arrakis
pega no seu velho magalhães (este era um exemplar raro que ainda funcionava) e
fai umha pescuda internética por algumha velha cantiga galega. E saiu com esta:
«Quantas
sabedes amar amigo, quantas sabedes amar amado, treides comigo ao mar de Vigo,
e banharnos-emos nas ondas, etc».
O trovador
dos Atreides (que era poliglota, amais de trovador), fica estantio perante a
beleza e singeleza desses versos supostamente portugueses, que portugueses eram
pois que o português os entendia, e eles eram os mais antigos de todos os que
já ouviram naquela espelunca, e nesse mesmo intre, coma por obra dum milagre,
os seus olhos se acendérom dumha faiscante luz azul ...