Tuesday, 18 October 2016

QUANTAS SABEDES AMAR (Conto galego)

No planeta Arrakis, ao abeiro dumha espenuca (nesse planeta costuma haver acotio tempestades de muito nabo) atopam-se com Gurney Hallek (o famoso trovador caladano) cinco outros trovadores:

Um deles é inglês.
Outro é francês.
Um outro é italiano.
Mais um outro é espanhol.
E o derradeiro é português.

Assi que o Gurney começa a tocar no seu baliset de nove cordas, ocorre-lhe umha pergunta de tipo histórico-linguística. Diz assi (traduço ao galego, pra facilitar a compreensom):
«Alô longe, mui longe, há um planeta, azul e nom coma o nosso, cheio de auga que nem o próprio Caladan, em que havia milheiros de trovadores. O derradeiro e mais milhor de todos eles chamava-se Bob Dylan, que escrevera cousas sublimes coma «estava eu a navegar na Frol de Maio quando cuidei albiscar terra». Mas antes dele houvo muitos outros. A pergunta-desafio do milhom de doses de melanxe, é a seguinte»:

«Quem dentre vós é quem (dentre vós) de declamar o mais antigo e belido poema-cantiga da vossa língua, mas que seja tam comprensível, pra vós, quanto belido e antigo?»


O francês salta de contado, já se sabe como som patriotas os dessa naçom, mas como nom sabia nada de francês antigo que fosse compreensível pra ele mesmo, ficou-se por um verso de Ronsard («Ah longues nuicts d'hyver de ma vie bourrelles, Donnez moy patience, et me laissez dormir» ) e que de resto nom vinha a calhar numha noite de tempestade de areia em Arrakis (onde os ventos som tam fortes que é sabido vos podem arrincar coma coitelos a carne dos ossos).

O inglês, mais comedido, acha que o seu tempo é chegado: «ele-eu tamém tenho algo pra recitar» («I will, if I may», dito na sua fala) e começa a recitar qualquer cousa do Guilherme Xaquespeira, tipo, «I like this place and willingly could waste my time in it» (E isto até o português o entendeu.)

«Moi bem», dixo o Gurney, «tam antigo coma o francês, e ainda nom menos belido e considerado» (e aí os protestos do trovador francês de que o idioma inglês provinha do francês nom recebérom muita atençom).

Toca ao italiano:

«Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
ché la diritta via era smarrita. »

«Bom, se quadra nom som os versos mais belidos que já ouvimos, — retrucou o Gurney — mas som mais antigos e venhem bem a calhar nesta cova de refúgio em que nos achamos ... »


O turno é agora pró espanhol, que consulta no seu iPhone 7 Plus e recita o seguinte:

«De los sos oios tan fuertemientre llorando,
Tornava la cabeça e estávalos catando»

E aí que o português se ergue de súpeto, e protesta: «isso não é bonito, pá, e de resto é português!». O espanhol nom parece fazer muito caso, porque anda mui ocupado no seu iPhone 7 Plus, a pescudar tradutores automáticos ou dicionários on-line que lhe ajudem co significado desse poema, que decerto lhe escapa ...

Gurney, matinando e afinando no seu baliset, diz, «mmmh, nom sei, nom sei ... » incerto ele tamém do significado da velha cantiga espanhola ou portuguesa ...

Entretanto, o português era o único que faltava por declamar. E como os portugueses som, como sabemos, mui aleutos e espilidos (=espertos), o nosso português de Arrakis pega no seu velho magalhães (este era um exemplar raro que ainda funcionava) e fai umha pescuda internética por algumha velha cantiga galega. E saiu com esta:

«Quantas sabedes amar amigo, quantas sabedes amar amado, treides comigo ao mar de Vigo, e banharnos-emos nas ondas, etc».


O trovador dos Atreides (que era poliglota, amais de trovador), fica estantio perante a beleza e singeleza desses versos supostamente portugueses, que portugueses eram pois que o português os entendia, e eles eram os mais antigos de todos os que já ouviram naquela espelunca, e nesse mesmo intre, coma por obra dum milagre, os seus olhos se acendérom dumha faiscante luz azul ...




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